domingo, 21 de junho de 2015

O outro lado da Branca de Neve

Contexto histórico da versão Grimm
No início do séc. XIX a região que posteriormente se tornaria Alemanha, vivia um momento de transição. A atual Alemanha ainda não existia, o que existia era uma frouxa federação reunindo trinta e cinco estados monárquicos e quatro cidades-estado republicanas. Assim permaneceu até o tratado de Viena em 1815 em que se constituiu a Alemanha como tal. Vivia-se a época das guerras napoleônicas que havia resultado na invasão e ocupação de toda a região por tropas francesas e que traziam forte pressão pela imposição de sua cultura e seus valores. Diante deste quadro, os habitantes da região se refugiaram em aspectos culturais específicos, sua história em movimento de resistência e auto-afirmação cultural nacional. Este aspecto tingiu fortemente o romantismo alemão. Os irmãos Grimm, como integrantes deste movimento, estavam no lugar certo, na hora certa, para refletirem este momento.
Esta proto-Alemanha fragmentada era grandemente baseada no sistema medieval feudal em que se observava a presença de uma classe dominante, nobre, e uma classe camponesa. Essencialmente não havia uma classe média, uma burguesia pronunciada. Esta situação está reproduzida no conto Branca de Neve em que podemos observar a presença desta divisão em classes distintas.
Ações culturais como o resgate de contos populares promovido pelos Grimm tiveram papel crucial no império prussiano para a preservação do espírito nacionalista alemão. Mesmo após as guerras napoleônicas elas continuaram a desempenhar papel aglutinador que auxiliou no processo de unificação política que se avizinhava.
Dentro dos contos Grimm, dentre os quais nos ocuparemos especialmente de Branca de Neve, é possível identificar reflexos do contexto de sua época em aspectos como, por exemplo, estrutura a família, emergência da educação, pressões religiosas, estrutura política, transição da tradição oral para meio impresso.

Contexto da estrutura familiar
Na passagem do séc. XVIII para o XIX esperava-se amadurecimento muito mais precoce do que se espera hoje. Não é exagero considerar-se que não existia infância como a conhecemos.  Esperava-se que as crianças trabalhassem assim que fosse possível e eram tratadas como adultas desde muito cedo. Pela incapacidade, até financeira, de as famílias oferecerem ambientes específicos às crianças e a enorme carência de opções de entretenimento as crianças se viam participando das atividades “adultas”. Assim eram expostas aos aspectos “nefastos”, “impróprios” das estórias que os adultos contavam uns aos outros.

(trabalho infantil)

Educação e Religião
Também as alterações que verificavam na educação e religião contribuíram para a retomada literária alemã do período. Ainda que o trabalho infantil estivesse extensivamente presente, por influência da ascendente burguesia, espalhava-se a ideia de que a leitura e estudo da Bíblia seria um caminho para salvação da alma. Em contradição, a Igreja Católica pregava que a salvação somente seria possível através da confissão e penitência. Com o passar do tempo esta difusão da leitura teria profundo efeito na história e política da Alemanha. Ajudou a criar um novo perfil de classe baixa, que conquistou certa mobilidade social pelo acesso a literatura básica, com uma visão filosófica maior da vida e um vigor religioso renovado. 
Os Grimm são tidos em elevadíssima conta em termos culturais e históricos, em que pesem algumas restrições modernas a seus métodos e fontes. A sua coleção de contos considerada, em geral como referencial, é das mais consultadas.
Jacob e Wilhelm Grimm abertamente se posicionavam não como autores/criadores dos contos. Assumiam-se como transmissores. Recontavam e adaptavam narrativas pré-existentes. Porém não se resumiam a meros transcritores, coletores. Moldavam as versões que coletavam imprimindo-lhe linguagem simples e de fácil compreensão. Intervinham “limpando” a linguagem para torná-la mais poética.

Contexto histórico da versão Disney dos anos 1930
Muitos aspectos do filme de Walt Disney “Branca de Neve e os Sete Anões” foram trazidos diretamente da versão dos Irmãos Grimm. Por outro lado, podem-se identificar numerosos aspectos culturais típicos dos EUA dos anos trinta.
Viviam-se os tempos pós-crash de 29. Época de Grande Depressão econômica. Como reflexo das acentuadas dificuldades econômicas, as pessoas eram forçadas, pela falta de opções e recursos, a passar mais tempo em família. Surgiu uma grande demanda por entretenimento de baixo custo para as massas. Foi neste contexto que surgiu filme sonoro e a cores e, neste movimento, a Walt Disney trouxe Branca de Neve para as telas.
Os anos trinta foram um período turbulento para os norte-americanos. Apesar de as recordações da Primeira Guerra Mundial estarem se dispersando, já se prenunciava a próxima grande inquietação na Europa. Apesar do fim da Lei Seca não se ofereciam muitas opções e lazer às camadas mais pobres da população. O surgimento do cinema com fácil amplo acesso do público trouxe uma porta escape da realidade para muitos. Filmes, documentários, desenhos animados ajudaram a anestesiar a atenção das massas sofridas

A Grande Depressão
A quebra da bolsa em 1929 fez os EUA entraram em profunda depressão financeira, com escassez de trabalho e dinheiro. Os americanos viram-se forçados a viverem bem aquém de suas preferências. Esta intensa pressão desencadeou mudanças na cultura americana. As narrativas surgidas neste período, especialmente filmes, se aproximaram de relatos de cunho nacionalista da Alemanha do século XIX. Hollywood buscava promover o espírito americano, engrandecer o senso de nacionalidade, e distrair os americanos da crise econômica vivida. Exibia muito mais interessem em mostrar uma utopia do que como elas realmente eram. O cinema passou a ser revestir de perfil de necessidade que de distração.


(Quebra da bolsa em 1929)

Necessidade Generalizada de Entretenimento
Na segunda metade dos anos 1930 o público adepto de cinema nos EUA girava entre oitenta a noventa milhões de pessoas por semana, (United States Census Bureau, 1930 Census. Isto significa que mais de dois terços dos EUA estava assistindo pelo menos um filme por semana.
Segundo o New York Times, “Branca de Neve e os Sete Anões” teve um público estimado em mais de 800.000 e foi o primeiro a permanecer mais de três semanas em cartaz.
Walt Disney tornou-se sinônimo de transpor contos de fada para as telas. Ao longo de mais de oitenta e cinco anos gradualmente tornou-se a porta de entrada da maioria da população mundial para o mundo dos contos de fadas. Disney não somente inovou com seus filmes animados, mas moldou todo um novo gênero de contos de fada adaptados para o meio fílmico. Apesar de não apresentarem nenhuma reivindicação quanto à autoria dos contos, reivindicam a propriedade de suas versões.

Transposição para filme
A transposição de uma mídia para outra acaba causando mudanças na mensagem, ainda que seja apenas para se respeitarem as regras, restrições e limitações específicas da mídia de chegada.
No período 1930 a 1940 não se atribuía ainda à fotografia o status de arte. Muitos críticos resistiam a admiti-la como tal. Como reflexo também o status do cinema era dúbio. Isto era especialmente agudo para o cinema de animação
Em 1930 havia competição acirrada entre os diversos estúdios pelo público pagante. Todos trabalhavam muito para criar novas ideias e aperfeiçoar tecnologias antes de seus competentes. Os estúdios Disney queriam produzir um longa metragem animado para obterem destaque.
Disney precisava conseguir usar animação de modo realista para se distanciar de um filme realizado com atores humanos. Em “Branca de Neve e os Sete Anões” Disney logrou obter esta mescla de realidade e fantasia. Atualmente a versão da Disney tornou-se a mais popular, a mais traduzida, a mais dublada em línguas estrangeiras e a mais distribuída mundialmente.
A reação da crítica foi dividida, mas basicamente positiva. Ao se verificar o texto da maioria delas, porém, fica clara a falta de familiaridade dos críticos com o conto original.
Tomamos por objetivo neste trabalho, fazer uma confrontação da versão apresentada por Disney com a versão dos irmãos Grimm, que tomaremos como “original” de referência.
Ao contrário do que mostra Disney, para os Grimm Branca de Neve era filha e havia sido desejada pela rainha, sua mãe.
Branca é mostrada no início do filme em trajes esfarrapados, como se fosse serviçal e vê o príncipe. Ela já está mulher formada. No filme Branca é criança de 7 anos.
No filme, Branca mostra forte associação e interação com os animais silvestres. Os Grimm não fazem qualquer alusão a animais no conto.
Segundo os Grimm, a rainha devora o coração e os pulmões que o caçador traz. Não há menção a isto no filme. Na versão de Walt Disney a rainha só pede ao caçador para que lhe traga o coração de Branca de Neve.


Apenas no filme Branca é guiada por animais à casa dos anões e Disney capricha na caracterização do horror no percurso. No conto chega após errar pela floresta.


No filme a casa dos anões está toda bagunçada e Branca logo se põe a arrumá-la. Há contribuição dos animais e várias lições moralizantes. Prepara comida para os anões e eles percebem Branca pela arrumação feita. Branca é mostrada como a dona da casa numa residência assobradada. Ela é também mostrada claramente como figura materna e os anões como infantilizados e incapazes. Demoram a encontrar Branca. Anões recebem destaque muito maior. Branca se oferece para cuidar da casa. Branca manda anões dormir. Branca tem cena de reza. Além disso, os anões ficam atordoados por conta dos beijos na cabeça.

No Conto a casa está meticulosamente arrumada e os anões percebem a presença de Branca pela desarrumação que ela causou. Prova comida já servida. Anões acham Branca rapidamente. Eles é que ensinam Branca a cuidar da casa. Branca “brinca de casinha” com os anões numa casa de cômodo único. Anões pedem que ela cuide da casa
Disney apresenta os anões individualizados, com personalidades próprias. No conto são anônimos.
Cena moralizante do banho dos anões => crianças!!
Rainha faz apenas um ataque, bem-sucedido no filme. No conto são no total 3, sendo que os anões a salvam em 2 deles.


No filme há presença de recursos mágicos para disfarce da rainha, inexistentes no conto.
No filme a madrasta é mostrada passando por pântano sombrio para levar a maçã. Pássaros tentam demover Branca de morder a maçã e depois chamam os anões.
No filme, a bruxa morre caindo de precipício, enquanto no conto ela  morre dançando em sapatos de ferro.
No conto, os anões são apenas situados como mineiros. Já no filme, há detalhes da rotina de trabalho deles, apontando até que são mineiros de pedras preciosas.
No filme, Branca é acordada após um beijo apaixonado do príncipe. Já no conto, ela acorda após levar um tapa nas costas que faz com que o pedaço da maçã saia.



Bibliografia:
Branca de Neve, visitado em 20 de Junho de 2015; http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/branca_de_neve.
Branca de Neve e os Sete Anões. Direção: David Hand. Disney: 1937.
Washington D. C.: Federal Archives, 1930, visitado em 09 Junho 2015; http://www.census.gov/pubinfo/www/1930facts.html; Internet
New York Times, “News of the Screen: ‘Snow White,’ First to Remain for Fourth Week at the Music Hall, Expected to Draw 800,000,” 31 January 1938, ProQuest Historical Newspapers The New York Times.

Grupo:
Evelise Rabassa de Melo     nº USP: 8072725
Francisco I. Bueno               nº USP: 8024915
João Joakim T. Wagner       nº USP: 809482

Peter Pan: Do You Believe in Fairies?

Peter Pan: Do you believe in fairies? 
Clara Coelho – 8023150
Dora Leroy – 8569594
Gabriel V. Lazzari – 8024731
Paula Marcele Sousa Martins – 8026494
Juliana P. Sergio - 8027460



História: Peter Breaks Through

A história conhecida como Peter Pan é a adaptação em livro de uma peça escrita por J. M. Barrie, que foi encenada pela primeira vez em 27 de dezembro de 1904, tendo o livro sido lançado em 1911. O título original era Peter Pan or The Boy Who Wouldn’t Grow Up (“Peter Pan ou O Garoto Que Não Cresceria”, em tradução livre) ou ainda, lançado posteriormente, Peter and Wendy (“Peter e Wendy”). Fez enorme sucesso de bilheteria à época, apesar de críticas à temática fantástica escolhida por Barrie.


O livro conta a história de uma menina, Wendy Darling, a qual se engaja em aventuras interessantíssimas na Terra do Nunca na companhia de seus irmãos, John e Michael Darling. Quem os leva para lá é ninguém mais, ninguém menos do que o personagem que dá título ao livro: Peter Pan.


Em uma noite fria de Londres, os pais dos irmãos Darling, George e Mary, saem para um evento social do trabalho do Mr. Darling (Sr. Darling), deixando os filhos sob os cuidados atentos de Nana, a babá das crianças. É importante lembrarmos que Nana é um cachorro, da raça São-Bernardo, conhecida por ser uma raça de cachorros cuidadosos, pois se envolviam no resgate de expedicionários perdidos na neve, por isso, cuidava bem das crianças. Há uma briga antes da saída do casal Darling, por causa do cachorro. George acreditava ser um ultraje a babá de seus filhos não ser humana, porém a falta de dinheiro da família não lhes permitia tal luxo, mas eles vão mesmo assim ao evento. Essa problemática da tensão entre os pais será um dos motivos que influenciarão as crianças a saírem em suas aventuras.


Durante essa noite, Peter Pan entra na casa da família Darling em busca de sua sombra. Peter havia perdido sua sombra quando, noutra noite, entrara na mesma casa, mas foi percebido por Nana, a babá-cachorro. Ela, então, persegue Peter, que tenta fugir pela janela, mas sua sombra fica presa quando Nana fecha a janela para contê-lo. Ao recuperar sua sombra, acorda Wendy, que o ajuda, costurando a sombra de volta em seus pés. Peter convida-a para ir com ele para sua morada, a Terra do Nunca. Wendy decide ir, com a condição de levar seus irmãos.


A Terra do Nunca é descrita como a mente de uma criança. É uma ilha cheia de alegrias e fantasias. Há piratas, índios, sereias, fadas e meninos perdidos, que são meninos que se perderam de suas famílias no parque de Kensington, e são os companheiros de Peter na Terra do Nunca. O plano de Peter era fazer de Wendy sua mãe, e também dos meninos perdidos. As personagens da ilha são saídas da imaginação típica das crianças do século XIX, influenciadas por uma vasta literatura de aventuras, como As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift), Robinson Crusoe (Daniel Defoe) e A Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson). Muitas aventuras envolvem as crianças, principalmente contra o principal antagonista do livro e arqui-inimigo de Pan: Capitão James Hook (James Gancho), um pirata cruel que navega com seu navio Jolly Rogers e sua tripulação de piratas pelas águas que envolvem a Terra do Nunca.


Ao final das aventuras, Wendy e seus irmãos sentem saudades de casa e decidem retornar a Londres, encontrando seus pais preocupados com seu desaparecimento. Os irmãos Darling percebem que queriam ter voltado antes, mas teriam perdido tantas experiências emocionantes na Terra do Nunca. Voltam trazendo os meninos perdidos, que são adotados pela família Darling, que deixa de lado seus problemas financeiros para reencontrarem o amor em sua família.


Ainda há um epílogo da obra, em que vemos Wendy, agora adulta, com sua filha, Jane, para quem conta as histórias sobre Peter Pan. Então, uma noite acontece uma “tragédia”. Peter volta para buscar Wendy, sem se dar conta de que ela havia crescido e se tornado adulta. Mas Jane, sua filha, vai com ele para a Terra do Nunca, e então o narrador nos conta que esse processo vai ocorrer para sempre, com Peter sempre voltando em busca de uma menina para ser sua mãe e isso continuará “enquanto as crianças forem alegres e inocentes e desalmadas” (BARRIE, 1995: 185, em tradução livre).



Autor: The Shadow


James Matthew Barrie (1860-1937) foi um escritor escocês de sucesso em sua época, conhecido fundamentalmente por ter escrito Peter Pan. Estudou na Universidade de Edimburgo e depois seguiu carreira como jornalista e escritor. Mudou-se para Londres para se concentrar mais em sua escrita e publicou uma série de romances, que ficaram menos conhecidos, mas na época ficaram famosos (BARRIE, 1995: 1).


A vida pessoal de Barrie é tema até hoje de polêmicas. Casou-se com uma atriz, Mary Ansell, mas veio a se separar dela em 1909. Ficou bastante próximo da família de seu amigo Arthur Llewelyn Davies e sua mulher, Sylvia, adotando, posteriormente, seus cinco filhos, por causa da morte prematura do casal.


A aproximação com a família Llewelyn Davies fez com que Barrie criasse um vínculo com as crianças, para quem contava histórias. Essas, posteriormente, tornaram-se parte da peça e do livro Peter Pan. Algumas personagens foram inspiradas nos integrantes da família, como o filho do meio, Peter, com o nome do protagonista; o mais velho, George, com o nome do Mr. Darling; o segundo mais velho, John, com o nome de um dos irmãos, e os mais novos, Michael e Nicholas, dando nome ao irmão mais novo. Além disso, significativamente, o autor dá seu próprio nome ao inimigo de Peter, James Gancho.





Adaptação animação: The Island Come True



A animação da Disney baseada em Peter Pan estreou nos cinemas estadunidenses em 1953. O filme conta a história do livro, focando em algumas aventuras pontuais do enredo. Teve problemas para ser produzido, porque vinha sendo pensado desde os anos 1930, mas a eclosão da Segunda Guerra Mundial, com os ataques a Pearl Harbor, adiou os planos dos Estúdios Disney, que se dedicaram a produzir propaganda para a guerra.


Durante o processo de criação do roteiro, várias mudanças em relação à peça e ao livro foram pensadas, mas, ao final, poucas alterações foram levadas a cabo, apenas algumas partes foram suprimidas, mas nada novo foi acrescentado. Há, contudo, na animação, o acréscimo de músicas acompanhando a história, como é consagrado em filmes da Disney. Elas ajudam o desenrolar do enredo, trazendo informações sobre as ações que estão acontecendo, de forma a facilitar a compreensão das crianças espectadoras e prender a atenção delas.


O filme foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, tendo recebido nomeações para o Instituto Americano de Filmes (100 anos... 100 heróis e vilões – Peter Pan; Maiores Musicais; e 10 Top 10). No entanto, isso não eximiu a animação de receber críticas, das quais uma importante foi a representação dos nativos americanos na obra, exaltada principalmente na música “What makes the redman red?” (em uma tradução livre, “O que faz o índio ser vermelho?”). Podemos observar assim o racismo presente na música: tanto pela questão da cor dos nativos americanos, quanto pelo próprio uso do termo “redman”, o qual é uma forma pejorativa de denominá-los. 

Na tradução brasileira, o estereótipo de raça continua, porém não se foca tanto na questão da cor de pele, mas sim no aspecto cultural. Percebemos isso com o próprio título, “Por que o índio diz au?”.



Comparação das obras: “Hook or Me This Time”


Apesar de a animação ser baseada no livro de Barrie, há várias questões que marcam a transposição de uma obra para outra, resultando por vezes em dessemelhanças. Uma diferença fundamental é o foco de cada. Enquanto o livro se detém principalmente na discussão sobre o crescimento e amadurecimento das crianças, a versão de Walt Disney prefere se voltar às aventuras em si, vividas na Terra do Nunca. Podemos observar isso na própria sinopse do filme, a qual se descreve como uma “fascinante história que nos ensina a importância de acreditar nos próprios sonhos”, opondo-se à mensagem subjacente à obra de Barrie, a qual aponta também para os benefícios de abandonar os próprios sonhos de criança (CANI, 2008).


Essa simplificação (e, talvez, inversão) da mensagem da obra pode trazer em si problemas. A recepção do filme por muitas crianças espalha a mensagem de que o legal é não crescer; Pan é o herói da animação, indiscutivelmente. Suas ações não são criticadas, como no livro, e, por isso, suas posições podem ser tomadas como positivas e modelares para os jovens espectadores. O livro (assim como a peça), ao contrário, se propõe a apresentar um mundo de imaginação, que é compartilhado pelas crianças e faz parte da experiência da infância, aliando isso a uma orientação (simbólica) visando ao amadurecimento delas. Essa boa visão do amadurecimento tem seu fechamento circular no final do livro, com a constatação da ciclicidade da infância e do crescimento na vida de todas as pessoas por meio da família Darling e as apresentadas sucessões das filhas, das filhas...
As you look at Wendy you may see her hair becoming white, and her figure little again, for all this happened long ago. Jane is now a common grown-up, with a daughter called Margareth; and every spring-cleaning time, except when he forgets, Peter comes for Margareth and takes her to the Neverland, where she tells him stories about himself, to which he listens eagerly. When Margareth grows up she will have a daughter, who is to be Peter’s mother in turn; and thus it will go on. [BARRIE, 1995: 185]

Uma sutil característica de Peter é sua idade. Em alguns momentos do livro, fica expresso que ainda tem “his first teeth” (“seus dentes de leite”, em tradução livre), indicando ter por volta de seis anos. Na animação, contudo, a idade aparente de Peter é maior, podendo ser estimada em doze anos, em sua pré-adolescência. Nesse sentido, é mais pertinente o desejo de não crescer de uma criança de seis anos do que de um pré-adolescente de doze, fazendo com que a obra de Barrie seja mais adequada para guiar esse amadurecimento infantil.



Outra questão interessante de se notar é a figura do pai, George Darling, nas diferentes versões de Peter Pan. A tradição da peça de teatro é que o ator que interpreta George é o mesmo que interpreta o Capitão Gancho. No livro, porém, apenas com o suporte verbal, esse vínculo entre os dois personagens não aparece. Na versão animada, contudo, temos uma aproximação e um afastamento da tradição: ao mesmo tempo em que ambas as personagens são dubladas pelo mesmo ator, as figuras desenhadas são díspares (o pai é gordo, com bigode cheio, nariz empinado e tem cabelo curto, enquanto Gancho é magro, com bigode fino, nariz adunco e tem cabelo longo).


Outro ponto interessante de se notar é a omissão do paradeiro dos meninos perdidos na versão da Disney. Como essa versão se foca nas aventuras ocorridas na Terra do Nunca, em vez de tratar sobre o crescimento das crianças, pouco importa a escolha dos meninos perdidos crescerem. Na verdade, é mais adequado eles ficarem na ilha, como parte de um sonho, ou de uma imaginação, do que voltarem à realidade tangível, engajando-se no crescimento, próprio de toda criança – exceto uma, Peter Pan.


Ainda pensando na questão do crescimento, um dos pontos imprescindíveis na obra de Barrie, porém totalmente ignorado por Disney, é a existência de um beijo escondido nos lábios de Wendy. Desde o começo do livro se menciona um beijo, que Wendy oferece para Peter. Ele, porém, não entende o que isso significa, acreditando que se trata de um objeto. No final da história, ao fim da batalha contra os piratas, Wendy beija-o. E Peter fica tão feliz que recupera suas forças e derrota Gancho.


Podemos considerar o beijo como um rito de amadurecimento erótico-afetivo, que é parte do crescimento de uma criança. Assim, é sintomático que, na animação, menos focada no crescimento e mais nas aventuras de criança, esteja ausente essa passagem; o foco no amadurecimento, dado na peça e no livro, é coerente a tal momento.



Conclusão: When Wendy Grew Up



Percebemos, assim, uma oposição nos focos dados na animação de Walt Disney e no livro/ peça de J. M. Barrie. Essa oposição se dá pelo enfoque no crescimento e amadurecimento infantil (livro/ peça), alterado na versão animada para deter-se nas aventuras vividas pelos irmãos Darling na Terra do Nunca.


Essa dissonância fundamental desdobra-se em outras, a saber o objetivo de cada obra (mais de formação ou mais de entretenimento); as diferentes figurações de Peter Pan, em fases distintas do desenvolvimento infantil (criança ou pré-adolescente); a vinculação entre as figuras de Gancho e do pai (fundamental para uma visão de coerência entre o imaginário infantil e a realidade), ausente no livro (por uma questão de suporte), presente na peça, e em partes na animação; o paradeiro final dos meninos perdidos (voltarem para Londres ou permanecerem na Terra do Nunca); e, por fim, o beijo de Wendy, símbolo do desenvolvimento sexual da criança. 



BIBLIOGRAFIA


AMERICAN FILM INSTITUTE. AFI's 100 Years...100 Heroes and Villains. Los Angeles: AFI, 2008.
__________. AFI's Greatest Movie Musicals - Nominated. Los Angeles: AFI, 2000.
__________. AFI's 10 Top 10. Los Angeles: AFI, 2000.
BARRIE, James Matthew. Peter Pan. Londres: Penguin Books, 1995.
CANI, Isabelle. Harry Potter, ou, o anti-Peter Pan: para acabar com a magia da infância. São Paulo: Madras, 2008.
CORSO, Diana Lichtenstein. A psicanálise na Terra do Nunca : ensaios sobre a fantasia. Porto Alegre : Penso, 2011.
PETER PAN. Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske. Walt Disney Studios, 1953. 76 min.


sábado, 20 de junho de 2015

A Jovem Adormecida: da tradição oral às telas do cinema

                À época do Romantismo literário, vê-se um mundo e pessoas divididos entre o bem e o mal, em que relativizar esses dois conceitos era bastante difícil. Com a evolução da sociedade e à luz da Modernidade, observa-se um mundo composto por esta dicotomia dividida por linha muito tênue.

     Na versão cinematográfica, Malévola (2014), expressa-se ideologia mais convergente à contemporaneidade nas suas complexas relações sociais. Embora se tenha no conto Sol, Lua e Tália essa visão mais contemporânea, não se pode afirmar que a versão A Bela Adormecida retrate de maneira moderna a relação bem versus mal. Nessa, a visão maniqueísta está bem demarcada, como veremos a seguir.

Sol, Lua e Tália ou A Bela Adormecida

Presente no imaginário de grande parte do mundo ocidental, os contos de fadas permeiam o desenvolver das gerações, estabelecem parâmetros, ditam conceitos, transpassando séculos e séculos.

As versões feitas pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm foram as que conquistaram maior alcance entre as histórias “para crianças” nos últimos séculos. Histórias muitas vezes adaptadas de versões orais que, em sua essência original, eram destinadas a adultos.
E com A Bela Adormecida, podemos notar um grande contraste entre a versão apresentada pelos irmãos Grimm (1812), e aquela mais próxima das versões orais, aqui representada como Sol, Lua e Tália , publicada em Il Pantamerone ossia La fiabe delle fiabe de Giambattista Basile (1636), e a partir deste contraste podemos observar a transformação de uma história voltada ao entretenimento adulto, a uma a ser apresentada posteriormente como um clássico infantil, envolta em uma estética romântica e infantilizada. 






Olhando brevemente para o conto dos irmãos Grimm, temos uma história em que as coisas acontecem simplesmente por acontecer. Uma rainha e um rei desejavam muito ter filhos, mas não conseguiam. Então, nada mais natural do que um caranguejo na banheira da rainha dizer a ela que seu desejo será realizado. 
Logo após o nascimento da criança, as fadas do reino são convidadas para presentearem a linda princesa, a fada que não foi convidada, enfureceu-se, e como castigo, destinou a princesa, que, quando jovem, espete o dedo em uma roca e caia morta em seguida.



A última fada “boa”, que ainda não tinha dado seu presente, amenizou a maldição: Mas não será uma morte de fato, ela apenas cairá em sono profundo e permanecerá por cem anos. Quando a jovem cai em sono profundo é despertada por um beijo do príncipe, e juntos vivem, felizes para sempre.


Agora, quando se tem em mãos o conto de Basile, Sol, Lua e Tália, nos ocorre certo estranhamento. Basile registra uma narrativa que parece pouco preocupada com os valores cristãos da época, e menos ainda com algum interesse romântico. Dos que recontaram essa história, sem dúvidas o autor italiano foi o que mais permitiu elementos cruéis e contrários à moral em sua obra, e por tal motivo, pode ser considerado o texto mais próximo das versões orais.
"[...] os camponeses não precisavam de um código secreto para falar sobre tabus. [...] E por aí vai, do estupro e da sodomia ao incesto e ao canibalismo. Longe de ocultar sua mensagem com símbolos, os contadores de história [...] retratavam um mundo de brutalidade nua e crua"(Darton, 1986)
Sol, Lua e Tália causa estranhamento no leitor logo nas primeiras linhas: Tália, a protagonista, fura o dedo na farpa de linho e adormece já no segundo parágrafo. O leitor contemporâneo fica desorientado por não saber o que virá a seguir. Note-se que aqui não há feitiços de uma “fada má”, mas sim oque ocorre é uma previsão de sábios e adivinhos sobre a sorte da jovem. Aliás, sorte e destino são fatores muito utilizados no conto.
          Ademais, há uma sequência de hipérboles na cena que dramatiza o que ocorrerá. Tália, ao contrário do que ouvimos em A Bela Adormecida, não adormece, mas caiu morta ao chão, o pai da moça chorou um barril de lágrimas. Essa tristeza ainda é intensificada pela interiorização aguda do corpo de Tália por seu pai: Assentou Tália em uma poltrona de veludo debaixo de um dossel de brocado, no interior do próprio palácio, que ficava em um bosque. Note a sequência: dossel de brocado – interior do palácio – bosque. O pai, diante de sua infinita tristeza, abandona a princesa para sempre.e.



          A seguir, vem uma das cenas mais impactantes do conto de Basile. Um rei, que caçava pelo bosque, depara-se com o palácio e chama por alguém, como ninguém o atendia, resolve entrar. Encontrando a bela moça que lhe parecia encantada, chamou-a, porém como esta não respondia, levou-a a um leito onde colheu dela os frutos do amor. Ou seja, estuprou-a, pois Tália adormecida não consentiu o ato. A seguir, o rei a deixa.


Temos aqui um segundo caso de abandono. Se pensarmos nos valores cristãos amplamente conhecidos, a atitude do rei não é nobre (como se espera de um cristão, ainda mais de alguém que possui tanta importância quanto um rei), pois estupra a moça e a abandona logo em seguida, sem se preocupar com o que lhe havia passado: Voltou ao seu reino, onde por um longo tempo não se recordou mais daquele assunto.

Tália dá a luz , então, a duas crianças: Sol e Lua, que devido ao estado  adormecido de Tália, são amparadas por duas fadas. Um dia, na ausência destas, os bebês com fome, por extinto buscam o mamilo materno, e durante a procura, acabam por chupar o dedo da mãe que havia sido espetado pela farpa e, assim, retiram-na da mulher, que desperta de seu sono encantado. Aqui, vale ressaltar que as fadas auxiliam as crianças, e nunca Tália.

Certo dia, o rei, lembrou-se daquela bela jovem adormecida e de sua prazerosa aventura, e diante da ocasião de uma caçada pelos arredores daquele castelo (novamente a sorte na narrativa), resolve vê-la. No conto de Basile, é explicitado que o fato ocorrido entre o rei e Tália foi uma aventura, com essa afirmação constante, se contraria novamente os padrões cristãos para a época e até mesmo para os da contemporaneidade, onde aventuras extra conjugais são abertamente condenadas.

Quando o rei adentra o quarto onde está Tália, é novamente abarrotado por dois prodígios de beleza, só que nesse momento a beleza a qual se refere é a de seus dois filhos. O rei então conta o que houve a jovem, que de nada se lembrava, e os dois incrivelmente ficam amigos, algo que não é comum, pois a jovem fora estuprada pelo rei, gerara dois filhos enquanto estava adormecida, e depois de toda essa situação aceita a amizade do homem que lhe colheu os frutos do amor e que lhe promete buscá-la e levá-la ao seu reino.
         Até este momento, a narrativa se desenvolve em torno de Tália, mesmo que esta seja uma personagem totalmente passiva nos acontecimentos. Mas, na sequência do conto, a Rainha entrará na história e ganhará destaque durante sua busca por vingança.


A Rainha é retratada através de figuras de linguagem e de algumas referências mitológicas como “coração de Medéia”, “carranca de Nero”, “turca renegada”. De modo geral, o conto traz figuras e símbolos para o interior de sua narrativa. 
A esposa do rei, desconfiada das frequentes caçadas do rei, questiona ao secretário em interesse de descobrir por quem seu esposo está enamorado. O questionamento, único discurso direto do texto, o que ressalta a importância desta personagem, é feito a partir de duas possibilidades, entre as quais  o secretário deverá escolher: Se você me disser de quem meu marido está enamorado, eu o farei rico; e, se me esconder a verdade, farei com que nunca mais o encontrem, nem morto, nem vivo. A escolha é a da riqueza. Aqui, novamente se há reversão dos costumes: a corrupção pelo dinheiro, que transforma qualquer empregado fiel em aliado do inimigo. 
          Então, a rainha ordena que o empregado busque as crianças com a justificativa de que o rei queria revê-las. Estas, chegando ao palácio, são levadas ao cozinheiro a quem a rainha lhe ordena a degola dos filhos do rei e o cozimento em diversos pratos. O cozinheiro, com pena das belas crianças, diz a sua esposa que as esconda e, prepara a comida com dois carneiros. A crueldade, já antes notória na atitude da Rainha de mandar degolar Sol e Lua, é intensificada pela sua fala durante o jantar: Coma, que está comendo o que é seu. Observamos aqui a presença de certa antropofagia que já estava presente em uma passagem anterior: Quando comia, tinha Tália em sua boca, e também Sol e Lua. E também mais adiante quando a Rainha se dirige à Tália: Você é aquele tecido delicado, aquela boa relva com que meu marido se delicia?. Essas falas contribuem ainda mais para o fator de estranhamento do conto.


A maldade da rainha, entretanto, não cessara. Manda o secretário buscar Tália porque o rei desejava vê-la. Entretanto, lá chegando, a moça é mandada para a fogueira, após claro, uma série de insultos proferidos pela Rainha. Antes, a protagonista do conto pede à esposa do rei, que possa retirar suas vestes; a rainha o aceita não por bondade, mas por interesse na riqueza do tecido (vemos, portanto, mais um elemento de interesse material presente no conto). No decorrer da ação, Tália grita, o rei a escuta e manda a rainha e o secretário, que ajudara na maldade, para a fogueira no lugar da bela adormecida. Recompensa o cozinheiro que havia salvado os filhos, toma a Tália como esposa e vive feliz com ela e os filhos, Sol e Lua.
Nesta segunda parte do conto, temos a presença da “bruxa má”, figura carimbada de qualquer conto de fada, pois a bondade exige de contrapartida a maldade. Porém, neste conto de Basile, temos a Rainha que tem seu excesso de crueldade ao mandar matar Sol, Lua e Tália. Mas por que a Rainha deseja essas mortes? Sua maldade é gratuita? Podemos intitular de fato de maldade?

A nossa Rainha, descobre que seu marido, o tão respeitado Rei, que sai para caçar e assim ter um pouco de distração, estava se distraindo não só com os cervos. A Rainha descobre que o Rei tem uma amante. Não só isso, mas que essa amante era uma linda jovem, que foi abusada pelo rei em seu sono profundo durante uma aventura, aventura que rendeu dois belos filhos, filhos estes que a Rainha não tinha. E ainda por cima, o Rei promete trazer a amante para viver no reino.


Aqui, se revela o lado perverso de qualquer ser humano ao se sentir ameaçado, humilhado, traído. Não que seja justificável matar alguém, mas neste conto a maldade aparece como um fator normal ao ser humano, pois ninguém é cem por cento mau ou cem por cento bom. A maldade da Rainha foi motivada pelas atitudes inconsequentes do Rei, e assim geraram um desejo por vingança, um sentimento de amargura e tristeza.

Ao contrário da adaptação dos irmãos Grimm, em que a “fada má” resolve castigar a princesa Aurora logo após seu nascimento, unicamente pelo fato de não ter sido convidada para a celebração de sua chegada. Um motivo fútil, em que a maldade está presente apenas pela necessidade de estar, não há motivação alguma para que as ações más ocorram.


Ainda observando a maldade e comportamento, temos no fim o castigo final a aquele ser causador do mal: a Rainha acaba por ser jogada na fogueira para ser queimada viva por sua crueldade, enquanto isso, o Rei vive feliz com Tália e seus dois filhos. Observamos então como os costumes da época eram controversos e como a mulher era pouco decisiva nas decisões e ações. O Rei apronta durante todo o conto, fere o que é posto como moral e bons costumes ao trair sua esposa, estuprar uma jovem desacordada, depois abandoná-la, voltar meses depois para continuar sua aventura e ainda jogar na fogueira sua esposa, que vale ressaltar, não tinha consolidado ainda seu plano de vingança, mas que também não teve ao menos a oportunidade de falar em sua defesa. E o “Felizes para sempre” é destinado ao homem da história, que se formos observar seu percurso, é um homem “mau”, tanto quanto a Rainha.
E para finalizar, vemos que a versão de Basile é marcada pela presença do destino, desde o começo com a referência aos sábios e adivinhos sobre o futuro de Tália; pelo acaso o rei fora pela primeira vez ao palácio de Tália, depois de alguns meses, ainda por acaso, por ocasião de uma caçada nas redondezas volta para vê-la; e esse aspecto de sorte, ainda é reafirmado com a frase final do conto, que é uma espécie de moral, que afirma esse encadeamento: aquele que tem sorte, o bem/mesmo dormindo, obtém.

Concluindo, o conto apresenta elementos que o distanciam dos contos de fadas amplamente divulgados: há uma crueldade muito acentuada, cena de estupro, abandono e antropofagismo.

Malévola


No filme Malévola (2014), adaptação do conto A Bela Adormecida, dos irmãos Grimm, feita pelas produções da Disney, a narração da princesa Aurora diz: Vou contar uma velha história de um jeito novo, veremos o quanto você a conhece. Nesta versão cinematográfica, a figura da Malévola é ambivalente, pois foge do maniqueísmo literário; ela não é nem boa nem má. O Rei, no filme, representa a figura estereotipada do mal, pois ele é vaidoso e ganancioso, já a figura estereotipada do bem é representada pelas três fadas, pois são elas que protegem e desejam o bem a todos.




Malévola é de natureza boa, pois é uma fada simpática, protetora de todos os habitantes do reino em que vive. Há contraposição de dois reinos, o dos Moors, em que vivem seres maravilhosos e o reino dos humanos, governado pelo ambicioso rei. A luta é dos humanos contra as fadas. Stefan aparece no reino das fadas, em que conhece Malévola. Eles se apaixonam, mas Stefan é um ser humano sedento por poder e dinheiro.
O rei dos humanos ambiciona destruir o reino das criaturas mágicas, inclusive Malévola, para usufruir das riquezas deste. Ele, às vésperas da morte, diz que deseja conquistar o reino mágico; Stefan, ambicioso, deseja suceder-se ao trono do rei, o qual prometeu doar todo o seu reinado a quem conseguisse vingá-lo, ou seja, destruir os poderes da Malévola, a qual o feriu durante batalha entre os dois reinos.




A reviravolta da protagonista ocorre quando Stefan, em nova aproximação, corta as asas da fada. Malévola não consegue mais voar, mas ainda tem alguns poderes mágicos. Ela sente-se muito triste após esse fato, pois não poderia mais defender seu reino das pretensões externas.


Stefan torna-se o rei no reino dos seres humanos. Stefan e sua mulher dão à luz uma menina, chamada Aurora. Malévola comparece à festa de celebração do nascimento de Aurora. Neste ponto, a versão do filme mais se aproxima do conto A Bela Adormecida, pois é quando Malévola surge para amaldiçoar a filha do homem que a traiu. Malévola, então, deseja que Aurora, caso espete seu dedo em uma roca, caia em sono profundo, podendo acordar somente com um beijo de amor verdadeiro. Depois disso, o rei Stefan decide que Aurora, até seus 16 anos (período de duração da maldição), fosse criada na floresta dos Moors com as três fadas para que ela pudesse ficar salva de encontrar uma roca e ter a curiosidade de espetar seu dedo nela.
Aurora cresce na floresta, sempre sendo observada por Malévola, a qual a livra de muitos perigos. A menina é curiosa e deseja conhecer o mundo que havia além dela, mas Malévola a adverte que há um mal neste mundo e não pode protegê-la. Malévola, acaba por fim, arrependida e retira a maldição proferida contra Aurora, mas é tarde.
Quando Aurora descobre que tem um pai vivo e que, na verdade, não é órfã, sai pela floresta em busca da verdade narrada pelas fadas que a criaram. Às vésperas de completar 16 anos, poderá retornar ao palácio, pois o feitiço estará desfeito. Aurora, na sua saída em busca de si, encontra Malévola e diz que uma fada má rogou-lhe uma praga. Malévola confessa que foi ela esta fada, Aurora diz à Malévola: Você é o mal que existe no mundo.


Malévola sente-se arrependida ao ver Aurora dormindo na cama do palácio após ter espetado seu dedo em uma das rocas escondidas no porão do castelo. A fada confessa que foi embebida de ódio e vingança. Malévola, protagonista da adaptação, é uma personagem complexa que incorpora o bem e o mal em si. Ao final, o amor materno que a fada nutre por Aurora a faz despertar do sono profundo. Malévola possui características de uma mulher determinada, inconstante, verdadeira e guerreira, não é uma mulher idealizada e passiva.
Malévola luta com o rei Stefan nos minutos finais do filme. Ele a questiona como ela se sentia sendo uma fada sem asas em um mundo que não era o dela. Ela, então, ganha novas asas para guerrear no mundo ao qual não pertencia e em que nunca desejou pertencer.
O final feliz do filme ocorre com a unificação dos dois reinos após a morte do rei Stefan. Aurora é coroada rainha do reino humano e Malévola, como a princípio, é a rainha do reino dos Moors.


A narradora, Aurora, presente no início ao fim do filme para contar a história diz que: A história não é bem como contaram a você, e diz, ainda, que sabe bem disto, pois ela própria foi chamada de Bela Adormecida. Aurora termina por dizer que No final, o reino foi unificado não por um herói ou um vilão, como previra a lei, mas por alguém que era tanto herói quanto vilão. E seu nome era Malévola.

Uma questão de perspectiva

Apesar de se servirem de um mesmo núcleo narrativo as três histórias sobre a bela adormecida que citamos trabalham de maneira diferente com os elementos que constituem aquele núcleo. Utilizaremos, como fio condutor de nossa análise, a maldade.
Em Sol, Lua e Tália a figura da Rainha representa o polo antagônico da narrativa. Como já discutimos anteriormente, ao nosso ver, existe uma motivação para as reações desta personagem, porém, para os fins de nossa analise atual, consideraremos que a narrativa não os apresenta, explicitamente. Não há tentativa de apresentar o Rei como culpável e da Rainha como alguém que sofreu um agravo, isso porque, como também comentamos, o homem é a figura central, tudo lhe é permitido e perdoado. É interessante pensar, para encerrar esse ponto e focarmos na questão da maldade, que a mocinha perdoa a atitude do Rei, já a Rainha não e, além disso, procura se vingar.
A Rainha, apesar das considerações anteriores, é construída na narrativa como a antagonista. Sua primeira aparição nos revela, por exemplo, que ela é irascível, porque foi tomada de um ardor maior do que de costume. Também usa de chantagem para que o secretário do Rei lhe dê as informações que quer. E como ponto alto de sua maldade, manda matar e cozinhar os filhos de seu marido. A crueldade do seu ato é incontestável. É importante perceber também que a vingança, cultivada por ela, é contra o rei, mas tem como alvos outros personagens que foram ainda mais vítimas do que ela. Também não há arrependimento. Em momento algum ela demonstra compaixão ou compreensão pela situação de Tália e seus filhos. Assim, a maldade apresentada nessa personagem é arquetípica. A sombra que é lançada sobre ela desde sua primeira aparição não é atenuada, ao contrário, é acentuada em cada ação.
Na versão mais difundida da história, a dos Irmãos Grimm, os atos da fada má, embora baseados em pretextos fúteis como foi assinalado, se limitam à tentativa de matar a Bela Adormecida. Não é de modo nenhum menos terrível, mas é evidentemente menos cruel que matar e cozinhar os filhos, e jogar na fogueira a mãe. Em comum com a personagem de Sol, Lua e Tália, ela também procura se vingar do agravo feito pela corte e também não apresenta nenhum arrependimento. As duas personagens representam, portanto, uma mesma concepção do mal em graus diferentes.
Já, na história fílmica que escolhemos há uma grande mudança. De semelhança vemos que ela é afrontada pelo jovem que se tornará rei e se move pelo desejo de vingança. Também como nas outras histórias, ela procura se vingar do rei atingindo sua filha inocente, porém aqui acabam as semelhanças. Como já dissemos anteriormente, ela é, em sua infância e juventude, uma fada boa e protetora. Esse simples passado de bondade se contrasta com o ardor maior do que de costume da rainha e da denominação de fada má que coloca a personagem de A Bela Adormecida como alguém sem nenhuma outra característica.
Além disso, durante o crescimento de Aurora, é Malévola quem cuida e protege a menina e que por fim cria um vínculo com ela. Ela se torna a fada madrinha da jovem contrariando toda a tradição dessa história. A figura que seria a representação mais crua do mal volta, nessa interação com a menina, ao seu estado primeiro de bondade e empatia.
Já estamos em outro terreno bem diferente da maldade absoluta vista nas duas primeiras personagens e isso é atestado no arrependimento de Malévola. Além de cuidar da criança e se tornar uma fada madrinha para ela, Malévola se arrepende, como citamos no tópico anterior, e tenta salvar a moça. Ela ainda se ressente e não confia no rei, mas percebe que Aurora não merece ser punida pela maldade do pai.
As considerações feitas acima nos fazem perceber que, se as duas primeiras personagens são protótipos de maldade e crueldade, Malévola é mais humana e real. Ela não é boa ou má, ela simplesmente reage aos acontecimentos e é transformada por eles. Ao ser traída, se torna dura e cruel, mas quando se depara com a inocência e bondade de Aurora, ela volta ter empatia e sensibilidade.

Considerações finais

Podemos ver, através desses textos, a mudança que os contos de fadas sofrem ao serem contados e recontados. Cada versão atraindo para si as ideologias de sua época e das pessoas que as contaram.
Uma mantém o caráter cruel da sociedade que a gerou apresentando explicitamente assuntos que, se para nós são horrendos, para aquele momento eram comuns e aceitos como comum. Também deixa o homem em sua posição de domínio e superioridade.
Outra idealiza a mulher e propõem para as jovens que serão atingidas por aquela historia um padrão de comportamento passivo e submisso que norteia a ideologia daquela sociedade. O homem continua sendo superior, pois é só o seu beijo que pode salvar a linda donzela.
A última, no entanto, aponta para uma sociedade em mudança que começa a perceber os estereótipos que criou e os malefícios deles, que repensa o amor verdadeiro prototípico de contos de fadas reformulando-o em um profundo amor maternal. E que, além disso, demonstra não haver linhas precisas entre o bem e o mal, não sendo esses opostos, mas partes de um mesmo ser.


Referências bibliográficas

DARTON, Robert. Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso. In: O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultual francesa. Tradução: Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
GIAMBATISTA, Basile. Sol, Lua e Tália. Disponível em: <http://volobuef.tripod.com/op_basile_sol_lua_talia...> Acesso em: 11 jun. 2015.
GRIMM, Jacob & Wilhelm. Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos - Translation by Christine Röhrig. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
MALÉVOLA. Direção: Robert Stromberg. Estados Unidos, Reino Unido: Walt Disney Studios, 2014. 105 min.


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